Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

Continuo com todos os que precisem de mim

Há já muito tempo que não escrevo  aos pais em luto que pesquisam na net umas palavras de coragem e solidariedade.

 

Tudo que está neste blog é vosso, é o meu sentir e sendo assim pouco mais há a acrescentar do que já escrevi. Compreendo, em cada ano que passa, mais a vossa dor. Estou mais velha, mais frágil e ao mesmo tempo mais forte. Não vos sei explicar esta complexidade de sentimentos onde as interrogações são constantes.

 

Felizmente, junto a mim, tenho os meus filhos vivos que me amam e me acarinham. Do outro lado tenho a criança que perdi. O filho que não cresceu. O filho que sinto que é o meu anjo, o meu companheiro, quando a solidão, de quando em vez, me bate à porta. É como estar dividida. Continuo a amar a vida...continuo a querer saborear o tempo que me resta amando, vivendo, sentindo este Eu que nasceu comigo e que acabará quando fôr  tempo.

 

O Nuno dá-me alento, dá-me o sorriso de esperança quando olho o mar, o céu, o sol, a lua e as estrelas e principalmente quando vejo as inocentes crianças a brincar...  Nelas encontro, por vezes, muitas semelhanças com esse filho que partiu. É a renovação, é o mundo que não pára.

 

Temos de ter coragem e enfrentar o dia a dia com resignação e esperança no amanhã, vivendo também positivamente cada dia que nos é oferecido. Usar a nossa saudade em energia positiva para sermos úteis mesmo nas coisas mais simples.

 

Já passaram 31 anos após a morte nunca esquecida deste meu amado filho. Como o tempo passa e como tudo se vai transformando...é inevitável.

 

Fui convidada a ir à TVI  amanhã, 23 de Outubro, ao programa "A Tarde é Sua" de Fátima Lopes.  Desejo que numa conversa serena e amiga as palavras que vos dirijo sejam as certas para vos ajudar a suportar tão grande dor. Que o meu percurso ao longo destes anos seja também uma esperança nos vossos corações

 

Um até breve  num abraço de conforto.

 

Aida Nuno

publicado por criar e ousar às 20:06
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Sexta-feira, 6 de Abril de 2007

E o tempo corre...

     

      Se não tivéssemos emoções ou sentimentos todos seríamos livres da dor... não tínhamos ilusões, ansiedades, medos e mágoas, só existiria em nós a lógica... Seria isso bom? Não sei se seria... Acredito que nos devemos empenhar em viver com qualidade de Vida e dar, na medida das nossas possibilidades, o que de bom temos.

 

       Para muitos dos pais o tempo é de sofrimento e o processo de reconciliação com a Vida é ainda longo e doloroso. Há que alcançar a esperança para que a alegria saudável volte ao seu interior e brilhe nos seus olhos. Recomeçar!

 

        O meu pensamento não é uma lei, não é uma certeza, é o meu sentir, a minha experiência perante a minha vivência de muitos anos de luto. Perdura em mim o ausente e isso, de certa maneira, conforta-me porque permanentemente esse filho me acompanha.

 

       Agarro-me a todos os bens que ele me deixou: a sua bondade, alegria e força. A beleza que irradiava, as suas palavras inocentes mas tão sábias, a despedida feita, sem que a morte fosse ainda anunciada, foram bênçãos para a minha vida e um grande e são orgulho me invade de ter tido este filho e de ter partilhado com ele onze lindas Primaveras. Digo Primaveras porque ele foi e será sempre a minha Primavera, o meu renascer...

 

        E o tempo corre, os anos passam e começamos a perder a nitidez da Vida passada, da voz do nosso filho, dos seus gestos e com angústia interrogamo-nos: Como é isso possível? Mas é assim...a sua Vida que foi palpável desapareceu e ficaram as suas palavras sem som e o seu espírito recolhe-se em nós mais vivo do que nunca. 

 

Neste fim de tarde quase vermelho

Um pouco alegre dentro do triste

Passeiam os pensamentos, os anseios

Vãos e irrealizáveis transbordando... 

  

E a flor cresce na terra quente

E o mar em ondas ruge e se espraia

Os anos não matam os momentos

Crescem, urram transbordando... 

  

Quem me dera falar-te, dizer-te

Em fim, amar-te vivo, criar-te em mim

Mas, meu amor, como era a tua voz?

Riso apagado, tristeza transbordando...

 

 

                                                               Aida Nuno

 

sinto-me: com coragem
publicado por criar e ousar às 19:11
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