Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

Injustiça

           É de uma injustiça tremenda perdermos os nossos filhos. Como podem os Pais em Luto continuarem a sua caminhada depois da morte de um filho motivada, a maioria das vezes, por incúria? Quantos deles morrem na estrada por culpa de condutores embriagados ou convencidos que são os donos do mundo e têm direito a todas as atrocidades? Também a preparação dos jovens para a sensibilização do “valor da vida” é praticamente nula e os números estatísticos de mortes são assustadores.

 

         Perante a morte de um filho, seja ela motivada ainda no ventre da mãe, ao nascer, por doença, por acidentes de vária ordem não é aceite e sente-se que tudo deixou de valer a pena.

 

         O que sucede quando a morte os escolhe? A reacção imediata é uma sensação de paralisia e, ao sairmos desse estado, encontramos o sofrimento.

 

         O que significa para nós esta palavra — “sofrimento”? — É a nossa memória que não pára de recordar desde o gerar, criar com amor e carinho, os bons momentos, a resolução dos maus momentos e tantas outras coisas que vivemos em comum.

 

         Ficamos vazios, desamparados, sozinhos. É contra isso que a nossa mente protesta e se revolta: termos ficado a sós com a nossa dor sem o amparo da esperança no amanhã que são os nossos filhos. A mensagem que queríamos deixar na Terra.

 

         Como é saber viver com esse vazio? Normalmente, passo a passo o tempo e a nossa lucidez fazem findar o sofrimento — um findar real, e não simplesmente verbal, não o findar superficial, resultante de fuga, de nos querermos enganar. Esta é a maneira saudável de superar mas para chegarmos a este estádio é preciso muita coragem e determinação.

 

         Quando assim acontece, o sofrimento termina e encontramos uma outra jornada isenta de dor. Entramos na nossa saudade, na nossa paz e olhamos o nosso caminho com uma outra serenidade e aceitação.

 

         É bom perdermos o medo à morte. Mentirmos a nós próprios, escondendo a sua existência, só nos trás desassossego. Reflectir sobre a Vida, dar-lhe significado, meditar e construir o nosso caminho, da melhor maneira possível, depois da morte de um filho, é a essência para a nossa plenitude.

 

         Agarrarmo-nos demais a tudo que possuímos, melhor dizendo, pensamos que possuímos, só nos trás insegurança. Penso que tudo nos foi emprestado inclusive o nosso corpo e sendo assim um dia teremos de o devolver ao Universo.

 

         Porque é que a morte dos nossos filhos é uma amputação, uma perda irreparável para toda a vida? - Porque todos os pais esperam que os seus filhos os amparem na velhice e que os ajudem a partir. Ver morrer um filho ou anunciarem-nos a sua morte é a dor mais cruel da existência humana.

 

         Depois de tantos anos de luto um momento que me conforta é recordar-me de uma enfermeira que falou comigo, num ambiente calmo, sobre a gravidade da doença do meu filho. O ter estado os últimos dias ao lado dele sem pensar na sua morte preparou-me posteriormente para me dar ânimo para prosseguir. Conversando e vivendo com ele naturalmente os seus últimos dias até ao seu final imprevisível, foram mensagens de amor e serenidade que ficaram para o resto da minha vida.

 

           O ter assistido à sua partida, as suas atitudes, palavras, o sentir que estávamos em comunhão mesmo depois de tantos silêncios do medo, aconchegou a minha saudade eterna.

 

           Desejo que os meus pensamentos, a minha experiência alcançada com o tempo, esse tempo onde busquei respostas a tantas interrogações, muitas delas perdidas no ilógico deixando-me vazia e sozinha, possam dar a todos os pais, seja qual for a sua situação presente, uma visão sobre o valor da vida no seu todo, ou seja, sobre aquilo que pensamos possuir e que de repente se esfuma por ser efémero.

 

Aida Nuno

     

sinto-me: consciente das dificuldades
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publicado por criar e ousar às 15:20
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1 comentário:
De Tó Zé Rodrigues a 13 de Fevereiro de 2007 às 22:01
A Morte é essa senhora dona, irmã da Vida, que anda a par com ela, e que tudo se faz na nossa sociedade para que seja ignorada ou esquecida.

Cruzar com ela significa dor. Aprender a viver apesar dela pode ajudar-nos a ganhar um novo sentido para a Vida.

Os seus textos transmitem luz.

Obrigado.

Tó Zé

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