Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

O Sentido da Vida e da Morte

        Todos sabemos que nascemos, vivemos e morremos. 0 que ninguém sabe, verdadeiramente, é a real mensagem do nascimento, do nosso percurso e morte, muitas vezes prematura.

 

         O interessante é pensar como o homem conduz e organiza a sua vida, isso inclui, a forma como são atribuídos os valores àquilo que a vida oferece: coisas, pessoas, conhecimentos e sentimentos. Essa reflexão pode conduzir-nos a um olhar mais profundo sobre como, muitas vezes, acabamos levando a vida.

 

         Existir não significa viver porque os que simplesmente existem têm mais angústia pensando na morte do que aqueles que vivem num caminho buscando uma meta, um ideal. Os que existem buscam constantemente apenas o que melhor possam conseguir para si de uma maneira egoísta. Já os que vivem têm um projecto entusiasta de vida. Para estes não importa o tamanho da sua obra, mas sim, deixar qualquer coisa de muito positivo para o seu próximo. Acreditam que se construírem algo positivo, mesmo que seja simplesmente cuidar da sua família, estão ajudando a humanidade. Os seus filhos são para eles uma espécie de mensagem viva para um futuro que não viverão, por isso o amor que oferecem e dedicação é a essência da sua própria vida.

 

          Devíamos considerar a dor da perda como uma visita da morte à Vida, e sem dor não há Vida. Apegarmo-nos demais a tudo que materialmente possuímos,  melhor dizendo, pensamos que possuímos e iludirmo-nos por um espaço de tempo que mais cedo ou mais tarde se nos apresentará sem sentido.  Houve outros valores, como a afectividade, o amor ao próximo, o relacionamente humano que foram descurados. Olhando para esse passado que já não sentimos e não nos deixou raízes, vemos um futuro curto e árido, resultado do caminho percorrido. Reconhecemos que já é tarde para modificar tanta coisa que poderíamos ter semeado. 

           

         A morte não significa velhice. Contrariamente, é uma certeza para atravessarmos a vida com coragem e com objectivos. É necessário perdermos o medo ao inevitável e viver com qualidade. Não devemos sofrer antecipadamente o nosso final anunciado. É  essencial reflectir sobre a Vida, dar-lhe significado, meditar e construir o nosso caminho da melhor maneira possível. Não devemos mentir a nós mesmos escondendo a sua existência silenciosa.

 

         Muito poucos de nós têm intimidade com cemitérios. Alguns fazem do cemitério um ponto onde encontram paz e meditação. Outros preferem a natureza e, por isso, desejam ser cremados e que as suas cinzas sejam jogadas nos campos, nos rios ou no mar. Cada pessoa sente de maneira diferente mas, no entanto, há muito em comum em todas elas. É preciso respeitar a dor.

 

         A morte acompanha-nos desde o nascimento e, sendo cega, não escolhe idades. Nada nos pertence e os nossos filhos também não. Somos só depositários fiéis desse tesouro. É muito difícil depois de tanto amor, carinho e preocupações, ficarmos tão magoados e sem esperança.

 

         A partir da sua ausência o que verdadeiramente importa é saber viver com esse vazio, sem dele fugir como recorrer a crenças alucinantes. É preciso deixar fluir a vida naturalmente.

 

         A morte de um filho é uma dor muito profunda. Deixemos essa grande dor esfumar-se sem remorsos. O tempo tem o dom de nos acalmar porque tem a vida para lhe fazer companhia. Que a saudade fique serena para nos impulsionar para atitudes boas e corajosas.

 

         Sou uma mãe em luto, um testemunho e o que vos posso dizer é muito simples: Meu filho partiu com a idade de onze anos e ausentou-se há vinte e cinco anos. 

 

         A sua doença prolongou-se durante dois anos e meio, sem uma grande dor física mas, de uma dor moral profunda. Acompanhei-o sempre e como pude pois, nessa época, os hospitais não permitiam a presença constante da mãe.

 

         Não duvido do profissionalismo desse tempo mas o papel do enfermeiro posteriormente modificou-se em relação à parte psíquica da criança e dos seus pais, especialmente a mãe. É gratificante sabê-lo. Penso que já se deram muitos passos para ajudá-los no acompanhamento dos filhos nos hospitais mas, com certeza, muito mais há para fazer porque nunca é demais procurar meios cada vez mais eficientes para ajudar quem sofre.

 

         Como mãe que perdeu um filho de doença prolongada, penso que os pais, nos casos de doenças terminais, deviam ser ajudados, pelos enfermeiros, a exteriorizar os seus sentimentos em relação à criança doente.

 

         Os pais ficam muito preocupados querendo saber exactamente o que a criança sente e, para isso, o papel do enfermeiro deve ser tentar perceber, através de desenhos, jogos, brinquedos, e outras ideias o seu estado psíquico a fim de ser normalizado.

        

         Eles precisam de informações exactas e actualizadas em linguagem que possam compreender e, repetidas essas informações se necessário. Muitos pais não têm nenhum conhecimento básico sobre anatomia ou fisiologia.

 

         Os enfermeiros devem ensiná-los a prestar cuidados especiais que, muitas vezes, são necessários. Assim tornam-se úteis e a sua ansiedade diminui.

 

         Sei, caso raras excepções, que o pessoal de Saúde também sofre, impotente contra uma realidade muito cruel: ver a dor da criança e não a poder salvar. Deve ser muito difícil estar firme nestes momentos e, por fim, transmitir aos pais a notícia da perda dos seus filhos. É importante e necessário que, essa terrível notícia seja dada por quem acompanhou o doente (seja médico ou enfermeiro) na sua fase final e não por uma pessoa estranha para os pais. Assim, seria muito importante criar dentro dos hospitais espaços onde estes profissionais possam também falar da sua dor e da sua impotência (de preferência em grupo). Porque não existir um psicólogo para os pais e também para os próprios profissionais de Saúde?

 

         Na doença o papel dos pais  é conseguir arranjar coragem para encorajar o filho a prosseguir com esperança na sua cura. Os filhos acabam por nos dar grandes lições de vida, de força e de coragem.

 

         Todo o vazio e angústia que nos oprime, o medo do futuro sem esse filho que motivou a nossa vida e o desalento que toma conta de nós demoram a extinguirem-se, aliás, pontualmente aparecem. Só o tempo nos ensina a saber desviar esses sentimentos.

 

         Eu ultrapassei-os olhando para os mais infelizes do que eu como, por exemplo, aqueles que ficaram sem filhos e ainda com dificuldades de vária ordem, sem possibilidade de recomeçar dada a sua idade, a sua fragilidade psíquica e outros problemas que não podemos abranger porque cada família é um mundo, por vezes, intransponível e o tempo não espera por nós...

 

         Estou aqui a pedir a todos os pais em luto muita coragem. Passo a passo o caminho da dor, revolta, ressentimento ir-se-ão esfumando. Hoje é o dia do primeiro passo. Bem Hajam.

 

Aida Nuno

sinto-me: com uma grande força interior
publicado por criar e ousar às 16:15
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